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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Segundo Lei Maria da Penha Causar dano emocional ao parceiro é crime porém vítimas demoram a reagir



Flagrante, não há. Marcas roxas tampouco estão lá para provar a agressão.

"Psicológica" é o adjetivo usado para tentar definir uma forma de violência silenciosa --por mais que o silêncio seja feito de palavras, acusações, cobranças. Ou gestos, olhares, sarcasmo, piadas. A complexidade da violência psicológica não impede que esse crime tenha uma definição legal. Está no artigo 7 da Lei Maria da Penha, que descreve muito bem constrangimentos, ridicularização e perseguição, entre outras ações causadoras de danos emocionais.

"É difícil explicar aos outros onde está a sua dor", diz o psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes.É difícil perceber quando, no relacionamento, o jogo do amor vira o da dominação. O pano de fundo é a vontade de anular o outro, torná-lo refém dos próprios desejos.

"Quando um tem um limiar para tolerar frustração muito baixo e o outro, muito alto, a violência se perpetua", diz a psicóloga Margareth dos Reis, do Ambulatório de Medicina Sexual da Faculdade de Medicina do ABC.

A comerciante Mônica, 49, trabalha atendendo clientes do marido, mas sem salário. Ele já escondeu a chave do carro da mulher, para ela não sair sem avisar. Um dia, quando Mônica fazia ginástica, xingou-a na frente de todos.

Mas ela não sabe o que vai fazer. "Temos 30 anos de casados, penso que tenho uma família. Por minhas filhas, já devia ter me separado."

Para complicar, o jogo é de mão dupla: quem sofre a violência se nutre dela e a transforma no cimento da relação.

Parece um jeito de culpar a vítima e desculpar o agressor. Mas não é novidade, para quem estuda a coisa.

"É a dinâmica sadomasoquista, um pacto inconsciente: um provoca, outro agride, o que deve dar algum prazer", diz a psicanalista Belinda Mandelbaum, do Laboratório de Estudos da Família do Instituto de Psicologia da USP.

Além de manifestar um aspecto da sexualidade, a violência psicológica é uma forma de comunicação. "Associamos essa forma de agressão a todas as ações que causam dano ao outro pela linguagem", diz a psicóloga Adelma Pimentel. A perversidade do jogo é que, no relacionamento íntimo, um sabe os pontos fracos do outro, aqueles que ninguém quer tornar público.

O marido de Mônica repete que ela é uma mãe relapsa. "Para me agredir. Mas é difícil perceber a violência psicológica. Você aceita, alguém manda em você."

"Você constrange a pessoa usando os demônios dela. E ela faz o que você quer, por gostar de você", diz Forbes.

Foi assim no primeiro casamento da inspetora de alunos Lúcia, 48. "Eu tinha 19 anos e me casei com o homem pelo qual estava apaixonada. Ele me desvalorizava porque eu era pobre, negra, e eu achava que ele tinha razão."

Destruir a autoestima do outro é a estratégia e a consequência da agressão oculta.

Lúcia achava que o ex-marido era lindo. "Ele dizia que eu tinha que agradecer por transar com ele. E eu nem sabia o que era orgasmo!"

O morde-e-assopra sustentava o jogo do ex. "Se eu chorava, ele me abraçava e dizia: 'Gosto de você como você é'."

"Os efeitos na pessoa agredida vão dos distúrbios alimentares à depressão, chegando à tentativa de suicídio", diz a psicóloga Marina Vasconcellos, da Federação Brasileira de Psicodrama. A vítima dessa forma de violência quase nunca quer mostrar a cara, porque denunciar a agressão é também expor as próprias fraquezas, Afinal, ela se submeteu, aceitou um arranjo ruim com medo de romper e ficar sem aquele amor.

Meu ex-marido me humilhava na frente de todo mundo', conta mulher - " Meu ex-marido sempre teve gênio difícil, mas você ouve que é temperamento, acaba se acostumando.

O relacionamento durou 18 anos. Depois de nove anos casada, pedi demissão da firma. Eu trabalhava no RH, ele tinha cargo administrativo na mesma empresa.

Em 2004 veio a primeira filha. Virei dona de casa. Em 2008, engravidei de gêmeos. Eu cuidava de tudo, nunca tive empregada, babá.Qualquer coisa que estivesse errada ele implicava. Xingava, às vezes era um gesto, uma cara feia. Nada estava bom para ele, em 18 anos nunca fez um elogio.

Uma vez, não gostou de um frango que eu tinha feito, pegou a chave do carro para sair sem me dizer nada. Foi a primeira vez que reagi: 'Não sou cachorro para você me ignorar assim'.Quando ele ficou desempregado, brigava por qualquer coisa. Na frente de todo mundo. Eu ficava com vergonha, abaixava a cabeça. Estava tão presa, a gente acha que casa e tem que ficar junto a vida inteira.

Pouco antes da separação, descobri que ele tinha amante. Se não tivesse acontecido, eu não teria percebido o que estava vivendo. Quando nos separamos, me vi sem identidade. Ele me diz que a moleza acabou, que quer ver como eu vou pagar o condomínio, que não vou ter mais convênio nem para os meus filhos.

É tudo junto, agressão financeira, moral. Ele fala que não sou nada, que não sou ninguém. Por um tempo, eu só chorava. E ficava pior ao ver meus filhos. Para a criança, o sofrimento é o mesmo se a mãe está com olho roxo ou se está chorando sem parar."

Joycilene S. Paoletti, 39, dona de casa

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