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sábado, 7 de janeiro de 2012

Ultraortodoxos e conservadores ganham força em Israel e deixam política do país a mercê de radicais religiosos.



Um protesto chocou os israelenses no último dia 31. Quando boa parte do mundo celebrava a chegada do ano novo (pelo calendário judaico, entre setembro e outubro), dezenas de judeus ultraortodoxos saíram em uma manifestação em Beit Shemesh, nos arredores de Jerusalém, com calças e camisas listradas e estrelas de David na lapela com a palavra "Jude" (judeu, em alemão). Crianças com o símbolo amarelo no peito levantaram as mãos em frente às câmeras, imitando, não por coincidência, a foto famosa de um menino judeu amedrontado diante de soldados nazistas no Gueto de Varsóvia, na Polônia da Segunda Guerra Mundial. A comparação com o Holocausto fez os moradores de Israel — Estado criado três anos após o fim do conflito — perceberem que o país passa por uma convulsão interna. Para muitos, um perigo à democracia.

Os manifestantes reclamavam de uma suposta perseguição da imprensa depois que fanáticos religiosos foram acusados de cuspir e xingar mulheres — incluindo uma menina de 8 anos — que não estariam vestidas com "suficiente modéstia".

O racha entre a maioria secular e os chamados haredim, menos de 10% dos quase 7,8 milhões de israelenses, também chegou ao Exército, instituição vista como"unificadora" porque o serviço militar obrigatório é visto como um rito de passagem nacional. Na semana passada, um rabino militar pediu demissão depois que o chefe do Estado-Maior, Benny Gantz, decidiu não isentar soldados ultraortodoxos de cerimônias nas quais há apresentações de cantoras mulheres.

Os casos evidenciaram o aumento do extremismo religioso e o crescente poder das minorias conservadoras em Israel, exemplificado por uma série de projetos de lei polêmicos e pelo aumento da violência de outra minoria: os colonos da Cisjordânia — menos de 4% dos israelenses.

Nos últimos meses, moradores dos assentamentos mais ultranacionalistas (minoria até mesmo entre os colonos) têm cometido uma série de ataques a mesquitas em cidades árabes na Cisjordânia, em Israel e até contra bases do Exército. O motivo: resposta a iniciativas do governo de desmantelar algumas colônias em território palestino.

Para Shlomo Cohen, ex-embaixador de Israel, essas minorias radicais formam uma "nova direita", fortalecida por governos de coalização como o do atual premier Benjamin Netanyahu — de pé com ajuda de partidos ultranacionalistas, como o Israel Beiteinu (do chanceler Avigdor Lieberman), e religiosos, como o Shas (de ultraortodoxos sefaraditas). - "Nos últimos anos, a agenda e o discurso público de Israel têm sido ditados por uma minoria: a nova direita israelense, formada pelo flanco mais radical do campo nacional-religioso, colonos; sementes ruins dos partidos Likud e Kadima; grupos nacionalistas, como Israel Beiteinu, e bobos da corte com grandes orçamentos", escreveu Cohen no jornal "Yedioth Aharonot". "Esse novo campo de direita quer transformar o país num Estado que não tem nada de judeu ou democrático".

Segundo Cohen, a nova direita "sequestrou" a política e o debate nacionais. Não se discutem mais assuntos como a paz com os palestinos, a ameaça iraniana, a "Primavera Árabe" ou o aumento do custo de vida. E sim temas que ele chama de "esotéricos": a tentativa de secar as fontes de financiamento de ONGs de "esquerda", a ideia de revogar a cidadania de quem não jurar lealdade ao Estado, a proibição dos muazzin (chamados de rezas pelos alto-falantes das mesquitas) e a limitação da nomeação de juízes liberais para a Suprema Corte.

O jornalista Ben-Dror Yemini concorda. Ele classifica a realidade israelense de "minocracia": — Só uma mudança no sistema de governo vai mudar essa distorção na qual grupos de pressão atropelam a maioria através de chantagem política — afirma Yemini, referindo-se ao sistema parlamentarista, no qual o partido mais votado só consegue formar o governo se tiver o apoio de mais de 60 dos 120 deputados do Parlamento, em um jogo que fortalece partidos pequenos, tornando-os cooptáveis.

O sistema também leva à proliferação de legendas, evidenciando ainda mais o caráter heterogêneo de Israel, cuja maioria é judaica (75%), mas onde coexistem árabes (20%) e cristãos (2,5%). Entre os judeus, a maioria se define como secular (42%) ou tradicional (25%), mas há religiosos (pouco mais de 23%) e ultraortodoxos (menos de 10%).

A maioria judaica também se divide entre nativos e imigrantes (só os da ex-União Soviética são 20% da população total). — Não são bons dia para a democracia em Israel, um país que sempre se orgulhou não só de ser a única democracia do Oriente Médio, mas de conseguir um balanço justo entre o caráter judaico do Estado e a democracia — diz o coronel da reserva Uri Dromi, ex-porta-voz dos governos Itzhak Rabin e Shimon Peres.

Os defensores do sistema político acham que ele é a melhor maneira de dar voz a todos. Os críticos, no entanto, acusam Netanyahu de submissão ao, em nome da coalizão, evitar entrar em confronto com os radicais. Atento às críticas, o premier tem tentado provar que não aceita todas as pressões. Na semana passada, ele engavetou um projeto de lei que tinha o potencial de enfraquecer a independência do Judiciário.

A emenda, aprovada no Parlamento, permitiria uma mudança nos comitês que apontam juízes para a Suprema Corte, facilitando a nomeação de magistrados de extrema-direita. "Comprometer a soberania da corte poderia causar um dano histórico e político ao Estado de Israel", criticara o presidente Shimon Peres.

Para a líder da oposição, Tzipi Livni, do centrista Kadima, barrar o projeto de lei não foi o suficiente. Em artigo lembrando os seis anos da saída repentina do ex-premier Ariel Sharon da política — ele está em coma desde 2006 após um derrame — Livni lembrou como Sharon enfrentou a extrema-direita, que o apoiava, quando decidiu sair da Faixa de Gaza, em 2005.

Alguns acreditam que a maioria silenciosa está começando a acordar, a exemplo do protesto recente contra a alta do custo de vida, que levou milhares às ruas. - "Abençoado seja o (extremista) que cuspiu e xingou mulheres, o ultraortodoxo que chamou uma soldada de prostituta e os que protestaram com roupas listradas e com estrelas de David", ironizou o colunista Nehemia Stressler no "Haaretz". "Tudo isso pode finalmente sacudir a maioria e forçá-la a agir".

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