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domingo, 30 de outubro de 2011

Paulo Niemeyer Filho - " Eu Luto pela vida !"



Desde menino, o neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho se acostumou a conviver com o imponderável bailado entre a vida e a morte. Aos 10 anos, acompanhava o pai, Paulo Niemeyer, um dos pioneiros da neurocirurgia brasileira, carregando sua maleta de instrumentos pelo país afora.

Na época, havia poucos neurocirurgiões, e Niemeyer viajava sempre para atender clientes em outros estados, principalmente do Nordeste:- Meu pai era meu super-herói, eu achava incrível ele ser chamado para salvar uma vida. Quando fiquei mais velho, ele me deixava assistir às cirurgias e, assim, cresci com a certeza de que queria ser neurocirurgião.

Ao contrário do que muitos podem imaginar, Paulo não precisou falar exaustivamente sobre sua relação com o pai no divã de psicanálise, que frequentou durante dez anos. A relação entre os dois sempre foi a melhor possível.

—" A psicanálise me ajudou muito pessoalmente e profissionalmente. Ela fez uma diferença enorme no meu convívio com os pacientes. É comum, quando tratamos de doentes graves, as famílias não se entenderem, principalmente no que diz respeito a pacientes idosos: uma parte da família acha que é preciso tentar tudo, enquanto a outra prefere que ele descanse. Não dá para operar alguém sem harmonia. Muitas vezes a família nega a gravidade da situação e fica se apegando a bobagens. É importante perceber as dificuldades das pessoas para conduzir a situação — explica o médico, que só opera em sala escura (a única luz permitida é a do seu microscópio), proíbe celulares e impõe silêncio absoluto. — É muita adrenalina, preciso de uma enorme concentração."

Mesmo sem ser um homem de fé, ele aprendeu que é mais fácil lidar com as famílias religiosas. — "A fé dessas pessoas acaba passando para você. Infelizmente não tenho, mas adoraria ter. Quando vou fazer uma cirurgia complicada, brinco com a minha mulher, Bebel, que é religiosa: “Você reza. Se existir alguma coisa, vai atender à sua reza, nunca à minha”.

Mas reconhece que lidar diariamente com a possibilidade da morte não é tarefa fácil.
— "Exatamente por causa disso, também passei a não me preocupar com bobagens, aprendi a dar pouco valor às coisas do cotidiano e a priorizar as relações humanas. Valorizo muito a minha relação com meus filhos (ele tem dois do primeiro casamento: Paulo, de 30 anos, e Isabel, de 26), com meus amigos e com minha mulher, porque sei que a vida é passageira" — diz Paulo, que não gosta de assistir a shows porque tem de ficar calado. — "Prefiro interagir com as pessoas, me dá muito prazer, acho que a vida é isso."

Na biblioteca de sua casa, num condomínio na Gávea, pertinho da Clínica São Vicente, onde trabalha diariamente, ele mostra algumas obras de arte — Sérgio Camargo, Cícero Dias, Iberê Camargo —, se declara mais modernista do que contemporâneo e conta que é ali que procura abrigo depois da tensão de horas de cirurgia.

— "A única coisa que me relaxa é a leitura, ela me tira da realidade. No cinema, não consigo, estou sempre olhando o celular para ver se tem emergência. Nas tardes de domingo, me deito no sofá da biblioteca e não saio mais. Fecho as portas e desapareço. Quando saio, parece que dormi três dias seguidos — explica Paulo, que gosta de livros que têm relação com sua profissão, com psicanálise, além de romances históricos e biografias. — A de Steve Jobs? É um personagem que não me interessa "— afirma o médico que, eventualmente, organiza em sua casa grupos de estudo. Os últimos foram sobre James Joyce e Marcel Proust.

De jeito monástico, ele conta que, aos poucos, foi se blindando emocionalmente para atender melhor seus pacientes. "— A gente vai ficando calejado, não deixando que a emoção tome conta. Depois que tive filhos, não consegui mais operar crianças, para mim era um drama. Jamais consegui resolver essa questão. Com adulto é mais fácil. É claro que é uma responsabilidade enorme, porque a família coloca nas suas mãos aquele destino, mas resolvo bem essa tensão. Mas quando se perde um doente, sempre é um drama."

Paulo explica que, atualmente, é muito raro perder um paciente na mesa de cirurgia.— "Nunca me aconteceu, mas é possível operar uma pessoa e ela morrer um dia depois. Quando isso acontece, naturalmente é um choque, nunca se opera alguém achando que ele vai morrer no dia seguinte. E ainda que eu não tenha culpa, sempre serei tentado a me culpar: será que eu fiz alguma coisa errada? Será que devia ter feito algo diferente? Por outro lado, é essa eterna luta que me faz crescer, progredir, isso é da minha personalidade" — diz o ariano de 9 de abril.

Operar amigos íntimos de problemas graves, jamais. Ele até já fez uma cirurgia de hérnia de disco no irmão, mas se arrependeu."— Correu tudo muito bem, mas depois fiquei imaginando se não tivesse dado certo. Vai que a dor persistisse e ele tivesse algum problema. Eu acho que o peso maior da medicina é exatamente essa responsabilidade, isso é muito mais cansativo do que ficar em pé muitas horas e ter de acordar às seis da manhã."

Mas, por seus pacientes, Paulo Niemeyer Filho está disposto a tudo. Na véspera de cada cirurgia, se enfurna na biblioteca, revê todos os exames, analisa os mínimos detalhes e planeja a operação. "— A neurocirurgia depende muito de planejamento, não é uma especialidade que se faz de maneira automática. Existem cirurgias nas quais você já sabe o que vai encontrar, elas são uma repetição. Já na neurocirurgia, existem muitos imprevistos e não há tempo de dizer: “Espera um pouquinho que eu vou dar uma olhada no livro”. É preciso estar preparado para saber o que fazer se acontecer algo diferente. Então faço tudo na véspera, já vou com a cabeça preparada. Evidente que pode ter sempre uma coisa para a qual não me preparei, mas estou sempre pronto para as eventualidades. Ajuda muito."

A primeira delas aconteceu quando era recém-formado e operava um conhecido professor de neurologia. Cauteloso, convocou o pai para ajudá-lo no caso de um imprevisto que acabou acontecendo. "— Me deparei com uma situação que nunca tinha visto. Na hora perguntei ao meu pai o que eu devia fazer. E ele respondeu: “Não sei, o paciente é seu”. Fiquei matutando uns dez minutos, decidindo se ia para cá ou para lá, e acabei escolhendo um caminho que deu certo."

Para Paulo, o tempo é sábio, e quanto mais velho um profissional vai ficando, mais safo ele vai se tornando na arte de tomar decisões.

"— Essas coisas vão te diferenciando, inclusive na decisão de parar uma cirurgia. É muito difícil saber o momento certo. Quando se opera um tumor, por exemplo, chega um ponto em que tirar mais um pouco já expõe o doente a um grande risco e não vai fazer a menor diferença . Por outro lado, é frustrante ter que dizer para a família “não pude retirar tudo”. É difícil, só se consegue lidar com essas questões com a maturidade" — explica Paulo, professor de pós-graduação de neurocirurgia da PUC e diretor do Instituto de Neurocirurgia da Santa Casa da Misericórdia.

Até hoje ele se lembra da primeira cirurgia realizada, no Hospital Souza Aguiar. Um rapaz levou um tiro, mas a bala ficou debaixo da pele. "— Eu era residente e, claro, tinha um médico ao meu lado. Mesmo assim, foi uma emoção enorme, voltei para casa me sentindo. Aliás, é uma emoção que se repete até hoje, aquela que move todos nós, a sensação do dever cumprido, de ter resolvido alguma coisa, de ter vencido mais um desafio" — explica Paulo, que se destacou mais ainda em 2001, quando realizou duas operações (a do cérebro e a da coluna) em Herbert Vianna, do Paralamas do Sucesso, que sofrera um acidente com seu ultraleve.

Para o médico, o panorama da neurocirurgia no Brasil vai bem, obrigado. "- Estamos muito bem representados nos congressos internacionais, temos ótimos neurocirurgiões em todos os grandes centros do Brasil, não devemos nada aos americanos nem aos japoneses. Hoje não é preciso ir para outro país fazer tratamento. Há muitos anos não mando um doente para fora."

Em compensação, o neurocirurgião lamenta que a perspectiva na rede pública seja péssima: "— Os hospitais públicos, que deveriam dar conta disso, são os hospitais universitários, as Santas Casas, as Ordens Terceiras, mas todos estão quebrados. O Fundão está com o centro cirúrgico fechado. A situação é a pior possível. Para resolver o problema da medicina, é preciso que haja a mesma seriedade que houve para resolver o problema da inflação e da violência no país. Praticamente 50% das minhas cirurgias na Santa Casa são gratuitas. Nosso grupo procura não deixar de atender ninguém por questões financeiras."

Mas se até Deus descansou no sétimo dia, por que Paulo Niemeyer Filho não poderia? Quando é possível, ele vai jantar no Gero e na Osteria. Mas sua paixão são os almoços no Clube Marimbás, no Posto 6: "— Adoro sentar ali com o pessoal que trabalha comigo, depois de uma cirurgia. Entrei de sócio só para almoçar lá."

Sempre impecável, conta que compra roupa só quando viaja, uma vez por ano. "— E é sempre na mesma loja, em Nova York: seis calças cáqui, seis calças cinza, seis camisas azuis e seis camisas brancas "— explica o médico, que faz ginástica três vezes por semana, mas confessa que nunca teve atração por esportes. "— Há algum tempo os Gracie homenagearam pessoas que se destacaram em várias áreas e ganhei a faixa preta da medicina. No meu agradecimento, contei que desde menino sonhava em ser faixa preta, mas a minha única chance seria ganhá-la de presente. Nunca tive físico para fazer qualquer esporte de ação."

Conviver com a possibilidade da morte não faz com que Paulo tenha medo dela. "— Sou um pouco dogmático, enquanto eu tiver saúde não vou pensar nisso. Ao contrário, penso muito no que eu vou fazer, nos projetos futuros. Sou positivo, acho que pensar na morte traz maus fluidos. É um assunto que não me atrai em nada, eu luto pela vida."

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